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As posses dão, Real senhor! O príncipe-regente D.Pedro em Guaratinguetá

A independência do Brasil marca a ruptura histórica definitiva com Portugal, após mais de 300 anos de relação pautada pelo pacto colonial. Entre o final do século XVIII e inicio do século XIX, ficava evidenciado o desenvolvimento de um sentimento de maior autonomia da colônia, que gradativamente crescia: desde a eclosão de movimentos revoltosos como a Conjuração Mineira, até a vinda da família real portuguesa ao Brasil, em 1808, que conferiu um novo dinamismo na política e economia.

            Sendo assim, entre 1808 a 1822, esse processo crescente de autonomia se acentuou, se agravando e gerando tensões com Portugal. Os atos finais deste processo foram o dia do Fico, no dia 9 de janeiro de 1822, e a própria proclamação da independência, em 7 de setembro de 1822. Nesse contexto, o Vale do Paraíba assume um papel de protagonismo sem igual neste importante fato histórico nacional.

            Em maio de 1822, tensões se acirram entre forças políticas antagônicas em São Paulo, sendo de um lado os irmãos Andradas, e do outro, Francisco Inácio de Souza Queirós e seus aliados. Diante dos ânimos exaltados, a cisão do governo provisório da província e o agravamento de uma revolta armada, José Bonifácio, até então ministro do Reino e Negócios Estrangeiros, busca apoio no príncipe-regente. Pela ótica de D.Pedro, qualquer dissensão interna poderia por em risco a causa da independência, sendo necessário apaziguar as tensões e estabelecer a autoridade imperial, motivando-o a ir para São Paulo, em 14 de agosto de 1822.

             Com a notícia de que a pequena comitiva real passaria por diversas cidades do Vale do Paraíba, cada localidade realizava seus preparativos para recebê-la. Passou por Bananal, São José do Barreiro, Areias, Cachoeira Paulista, Lorena, chegando à vila de Santo Antônio de Guaratinguetá, em 19 de agosto de 1822.

A vila, com mais de três mil habitantes, 329 casas (segundo registra o pintor Palliére) e ruas apertadas experimentava um crescente desenvolvimento econômico, devido a lavoura canavieira e o plantio do café, bem como a proximidade com a capital, Rio de Janeiro, trazendo toda e qualquer inovação e novidades. Mas isso contrastava com a realidade da maioria da população, que majoritariamente era composta por escravos.

            Muito aguardado desde o dia 17 de agosto, onde o príncipe-regente já foi recebido por um guaratinguetaense ainda em Lorena, o prof. Francisco de Paula Ferreira, enviado pela Câmara Municipal de Guaratinguetá, para lhe entregar ofícios da instituição. D.Pedro chega à vila de Santo Antônio de Guaratinguetá pela ponte da Estalagem e é recebido por autoridades e a população. Para a recepção do príncipe, a Câmara Municipal ordenou que as casas que estivessem no percurso tivessem suas frentes caiadas e recebessem iluminação para noite. Hospedou-se na casa do capitão-mor de ordenanças Manoel José de Melo, dono de um dos maiores latifúndios da província de São Paulo, onde prosperou economicamente e angariou ampla influencia no plano político local. Sua residência tornou-se um “Paço Real”, como era costume dos reis nesse período.

            D.Pedro recebe mensagens de boas-vindas do clero de Taubaté e ordena o encaminhamento de um agradecimento, por parte do Secretário de Estado do Interior, Luiz Saldanha da Gama.

Foi oferecido um jantar, servido em uma riquíssima baixela de ouro. Tal fato surpreendeu D.Pedro, que elogiou o anfitrião, que prontamente responde, de maneira bem humorada: ”As posses dão, Real senhor!”. O capitão-mor preparou o melhor aposento para o príncipe para o pernoite, tendo ele se recolhido em outra dependência da casa. Esta residência foi demolida no início do século XX e a atual construção é a sede da ACEG (Associação Comercial e Empresarial de Guaratinguetá).

            Em 20 de agosto, o príncipe-regente lavrou uma ultima portaria pela manhã e partiu, subindo a ladeira da Cruz Grande (atual rua Marechal Deodoro), passando pela matriz de Santo Antônio e pela rua da Figueira, chegando ao limite urbano da vila, rumo a vila de Pindamonhangaba. Nesse momento, segundo afirma o jornalista português Zaluar, em obra publicada em 1860, registra D.Pedro encontrando uma grande figueira, entalhando no tronco da árvore a sigla PI (Pedro Primeiro), de próprio punho. Com o desenvolvimento desta figueira colossal, que remonta do século XVIII, a assinatura do príncipe elevou-se a altura de três homens. Ela foi derrubada, mas legou o nome do bairro onde ela existia.

A comitiva do príncipe-regente foi acompanhada por dois guaratinguetaenses: José Monteiro dos Santos e Custódio Leme Barbosa, ambos alferes de milícias, que passaram a integrar a Guarda de Honra, formada em Pindamonhangaba. Ambos foram testemunhas oculares do grito do Ipiranga, no dia 7 de setembro de 1822.

Podemos compreender, portanto, que o papel do Vale do Paraíba foi fundamental a consolidação do processo de independência do Brasil. Em cada vila que a comitiva real passava e pernoitava, agregava mais apoio a causa emancipacionista junto às autoridades da governança da região, os nobres e a população, e em Guaratinguetá não foi diferente: no grito dado às margens do Ipiranga, dois guaratinguetaenses testemunharam eventos que lançariam os alicerces do Império brasileiro.

¹ Felipe Nogueira Monteiro é historiador e licenciado pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL – Unidade Lorena), pós graduado em Museografia e Patrimônio Cultural e Ciências Políticas. Atua como professor de História e coordenador de área de História e Geografia de rede municipal de educação de Guaratinguetá-SP.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COUPÉ, Benedito Dubsky. Vento Rio Acima. 2001

MUSEU FREI GALVÃO (org.). Guaratinguetá ontem e hoje. Editora Noovha América. São Paulo. SP. 2010

PASIN, José Luiz. A Jornada da Independência. Vale livros. Aparecida. SP. 2002.

PASIN, José Luiz. A participação do Vale do Paraíba no processo de Independência. ANPUH. 1972.

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